O Coletivo Flutua, fundado em 2017, atua entre São Paulo, Uberlândia e Florianópolis desenvolvendo instalações infláveis, oficinas e intervenções públicas que integram arte e educação. É formado por profissionais de arquitetura, artes e design, com foco em metodologias participativas e diálogo com territórios urbanos.
2025
Sacolas plásticas soldadas, estrutura em madeira, cabos de aço e peças metálicas
Entremear provoca uma reflexão sobre o plástico – presente em quase tudo ao nosso redor. Feita a partir de sacolas reutilizadas, soldadas manualmente com ferro de passar roupa, a obra forma caminhos densos e sobrepostos, remetendo à sensação de estar imerso na poluição que hoje ocupa todos os espaços.
Como um labirinto visual de bandeiras, a instalação une arte e educação e transmite o grande desafio que é fugir do plástico atualmente, entre excessos e acúmulos. Serve também como um lembrete da urgência em repensar nossos hábitos de consumo e criar soluções responsáveis para mitigar a crise ambiental.
Estudos recentes indicam que mais de 5,5 milhões de toneladas de plástico entram nos oceanos anualmente, sendo que 80% desse lixo tem origem terrestre. Além disso, mostram que a produção global de plástico atingiu aproximadamente 460 milhões de toneladas métricas em 2024, com projeções de crescimento contínuo Apesar dos dados alarmantes, Flutua desperta outras maneiras de se relacionar com o plástico, em busca de outros futuros possíveis.
Gyulyia é uma artista visual de São Paulo que trabalha com animação digital, vídeo e instalações imersivas. Sua pesquisa combina arte e tecnologia para abordar temas ambientais e paisagens sensíveis. Atua na fronteira entre a estética digital e a urgência ecológica.
2025
Animação 2D & 3D, arte generativa
Em uma videoarte imersiva, Gyulyia denuncia a devastação dos oceanos sob a lógica extrativista do capitalismo tardio. Em um plano-sequência sensorial, dados científicos, animações subaquáticas e colagens documentais costuram uma narrativa que revela a interdependência entre poluição oceânica, extinção marinha e colapso climático.
A obra propõe uma travessia visual por um oceano que agoniza, com animais que ainda lutam por um espaço que é (e sempre foi) deles, denunciando a sobrecarga de resíduos, calor e indiferença.
A artista ecoa em Maré morta os dados de que 1 milhão de espécies estão ameaçadas de extinção e que os oceanos são fortemente afetados pela crise climática (IPBES, 2019). Com base em estudos científicos, a videoarte reitera as espécies em extinção, as colisões entre navios e baleias-jubarte, além do número assustador de que o tráfego marítimo se sobrepõe a 92% das áreas de distribuição das grandes baleias no planeta, segundo a revista Science.
Felipe Arantes Silva, ou Iskor, é artista visual, designer e professor. Formado em Comunicação Social e especializado em Sociopsicologia, seu trabalho investiga identidade, memória e território. Com passagens por projetos como o MAR (Museu de Arte de Rua), SESC e residências artísticas, sua produção une muralismo, escultura e crítica ambiental com forte presença nas ruas e nos espaços expositivos.
2025
Metal, MDF, madeira, tinta acrílica, spray, rede de pesca, resíduos diversos
A instalação Mar de Fantasmas coloca o visitante dentro de um túnel formado por estruturas de metal, redes e resíduos marinhos resgatados do mar. Ao inverter o papel do público – de agente para vítima – a obra traz à tona o impacto silencioso da pesca fantasma: equipamentos abandonados que continuam capturando e matando seres marinhos mesmo fora de uso.
O uso de objetos reais, doados pelo projeto Marulho e pelo Conserto e Montagem de Rede de Pesca de Itajaí, traz concretude à obra e transforma o espaço em um ambiente de tensão silenciosa. A presença dessas “armadilhas” suspensas cria para o visitante um clima também de aprisionamento.
A pesca fantasma representa cerca de 10% do lixo marinho global, com mais de 640 mil toneladas de redes perdidas nos oceanos a cada ano. A obra provoca uma tomada de consciência sobre os resíduos invisíveis que comprometem ecossistemas inteiros ao dialogar com dados do Global Ghost Gear Initiative, que indica que equipamentos fantasmas matam mais de 100 mil baleias, golfinhos, focas e tartarugas por ano.
Arthur Boniconte é cofundador do estúdio Midiadub e atua como artista, cineasta e diretor criativo. Formado em cinema pela FAAP, já teve obras exibidas em países da América Latina, América do Norte e Europa. Sua pesquisa combina narrativa, tecnologia e ativismo ambiental.
2025
Vídeo digital criado com inteligência artificial (IA)
Neste documentário ficcional criado com inteligência artificial, o oceano fala com o público e compartilha sua dor, sua história e sua resiliência frente às agressões humanas com o descarte de lixo, pesca predatória e derramamento de óleo.
A voz do oceano é construída com IA, mas carrega emoções reais. O vídeo mescla algoritmos e uma narrativa poética para dar vida a um oceano que, apesar de sintético, nos confronta com a realidade de sua degradação, mas também nos lembra que salvar os oceanos é salvar a nós mesmos.
Oceano Artificial se conecta com projeções que indicam que, até 2050, poderemos ter mais plástico do que peixes nos oceanos (Ellen MacArthur Foundation, 2016). Ao usar ferramentas de IA como Midjourney, Kling e Eleven Labs, o artista lança um debate atual sobre as tecnologias emergentes, e como podemos usar a inteligência artificial para amplificar narrativas de preservação, e não de exploração.
Luis Felipe Martins, conhecido como Padre, começou sua trajetória artística observando a natureza e registrando imagens em viagens. Percorreu o Brasil e o mundo – da Europa à Tailândia e Austrália -, construindo um olhar sensível sobre o corpo, o planeta e a espiritualidade. Hoje une arte, vídeo e cura como formas de expressão e transformação.
2025
Manipulação de vídeos (VJing)
A obra imagina uma cidade submersa, em que a água invade os espaços urbanos e transforma o real em algo novo e simbólico. Com técnica de VJing, um processo de manipulação de imagens e vídeos em tempo real, em sincronia com a música, Padre cria uma narrativa visual que nos conduz por esse universo inundado, onde o tempo e o espaço se misturam.
Por meio da sobreposição de vídeos da água e cenários urbanos distorcidos, a videoarte transforma o colapso climático em paisagem sensível. A cidade submersa é um aviso e um delírio; um território onde passado, presente e futuro desaguam.
A videoarte provoca reflexões sobre o aumento do nível do mar e a vulnerabilidade das cidades costeiras, como Rio de Janeiro e Recife, diante das mudanças climáticas (IPCC, 2023), e projeta o futuro próximo das cidades costeiras, refletindo a previsão de elevação do nível do mar em até 1 metro até 2100 (IPCC). Um alerta visual e poético sobre os riscos da inércia climática.
Renata Larroyd é fotógrafa, artista visual e contadora de histórias. Atua entre o documental e o poético, com obras que surgem do improviso e do desejo de conexão. Sua prática transforma o cotidiano em arte e propõe outras formas de escuta e sensibilidade.
2025
Videoarte, imagens em preto e branco
A obra busca traduzir, em forma de imagem e som, a potência simbólica do oceano como lugar de origem, escuta e transformação. O mar deixa de ser apenas paisagem e se torna território vivo, de onde partimos para refletir sobre quem somos e como nos movemos no mundo.
Ao usar do preto e branco a artista intensifica a atemporalidade da imagem e apresenta o mar como espelho da alma e território de passagem, propondo assim uma experiência meditativa, onde ver é também sentir e recordar.
Em Linha divisora, Renata Larroyd evoca o oceano como regulador climático e espaço de ancestralidade, e sugere que a linha entre terra e mar é tênue, e que a separação entre natureza e cultura é ilusória, e que devemos sempre navegar pelas águas que tocam a nossa pele, expandem o nosso olhar e despertam diferentes sentidos.
Subtu é artista visual de São Paulo, onde mantém seu ateliê. Criador do personagem Yoko, atua desde 2000 com arte urbana, esculturas e instalações que abordam temas sociais e ambientais. É conhecido por obras em espaços públicos e exposições em cidades do Brasil e do mundo, incluindo iniciativas inclusivas como o Graffiti Para Cego Ver.
2025
ferro reaproveitado, câmaras de pneu, TNT e sacolas plásticas
Latente representa um Tubarão-Baleia, maior peixe do planeta, feito com materiais reaproveitados como borracha de pneu e plásticos. A escultura revela, ao mesmo tempo, a grandiosidade e a vulnerabilidade do oceano diante da presença humana como uma força encoberta por resíduos.
A escultura, de grande escala, inspirada na imagem de 2014 de um pescador da província de Fujian, condado de Yangzhi, na China, transportando um tubarão-baleia de cerca de 5 metros, e peso de quase duas toneladas, impõe presença física e simbólica.
Estudos da IUCN (International Union for Conservation of Nature) apontam que a abrasão e o descarte de pneus são responsáveis por até 28% dos microplásticos que chegam aos oceanos. Pneus descartados de forma inadequada liberam metais pesados e hidrocarbonetos ao longo de seus 500 a 1.000 anos de decomposição, afetando diretamente organismos marinhos.
Além disso, pesquisadores da Universidade de Washington identificaram que uma substância presente na borracha dos pneus, o 6PPD-quinona, é altamente tóxica para peixes, tendo sido associada à mortalidade de salmões nos rios da América do Norte.
2025
ferro, lonas, tecidos e roupas reutilizadas
A raia, espécie amplamente encontrada na Baía de Guanabara, é símbolo tanto da resistência da vida marinha em áreas impactadas quanto da vulnerabilidade dos ecossistemas costeiros diante da ação humana.
Aqui ela ganha forma a partir de ferros reaproveitados, tecidos, lonas e roupas usadas. Subtu chama atenção para o descarte excessivo de materiais têxteis e para o impacto silencioso da indústria da moda sobre os ambientes marinhos e reforça assim a delicadeza da vida marinha diante de um cenário onde o excesso de consumo molda novas paisagens: a beira-mar ocupada por restos de tecidos, as águas invadidas por microfibras, os corpos marinhos impactados por aquilo que vestimos e descartamos.
Segundo a Fundação Ellen MacArthur, a indústria da moda é responsável por cerca de 20% da poluição da água industrial e por 35% dos microplásticos liberados nos oceanos, vindos principalmente da lavagem de tecidos sintéticos como poliéster e nylon. Esses resíduos, muitas vezes invisíveis, comprometem cadeias alimentares e colocam em risco a biodiversidade marinha.
Ao sobrepor escultura e denúncia, Tralha Marinha transforma resíduos têxteis em linguagem crítica. A obra nos convida a refletir sobre os ciclos de produção e descarte, e sobre como nossas escolhas cotidianas impactam diretamente os oceanos. O que parece sobrar, falta onde importa.
Via é uma artista transdisciplinar de São Paulo. Seu trabalho investiga interações ecológicas e a interconexão entre seres humanos e não-humanos. Formada em Design de Moda e Arteterapia, desenvolve sua produção por meio da videoarte, instalações, pintura e performance. Participou de exposições no Brasil e na Europa, incluindo o MAM-RJ e a galeria After the Butcher, em Berlim.
2022
Linha 100% poliéster, projeção mapeada
Criada a partir de fios de costura descartados, a instalação utiliza linhas feitas de poliéster – um tipo de plástico presente em quase todas as roupas. A videoinstalação aborda como até gestos cotidianos, como lavar roupas, liberam microplásticos que acabam nos rios e oceanos. Um convite à reflexão sobre os impactos invisíveis da moda no meio ambiente.
A projeção mapeada se sobrepõe ao emaranhado de fios como se fosse um organismo respirando. O entrelaçamento dos materiais cria uma sensação tátil, de rede, de algo que nos envolve sem percebermos – como o plástico no cotidiano.
Trama das Coisas conecta aos estudos que mostram que microplásticos estão presentes em 80% das amostras de água do mar e são liberados por atividades simples como lavar roupas (UNEP, 2021). E VIA traz à tona a ideia de poluição invisível e silenciosa, uma camada simbólica que se conecta à discussão sobre microplásticos nos mares e suas implicações para a vida marinha e humana, além de um chamado à responsabilidade das indústrias têxteis.
2025
Videoarte
A obra “Ato I” propõe um mergulho na origem da vida, misturando perspectivas científicas e espirituais. É uma homenagem à sabedoria dos oceanos, à sua força criadora e complexidade, e também à sua fragilidade diante da destruição ambiental. Ao revelar que tudo está interligado – a vida humana, os seres marinhos, os ciclos naturais – a obra convida o público a escutar as memórias que o mar carrega e que precisamos reaprender a escutar.
Como uma construção visual a videoarte aposta em atmosferas sensoriais e ritmos orgânicos para convidar o público à contemplação. O mar aparece não apenas como cenário, mas como personagem ancestral e sagrado, que observa e registra o tempo humano.
A obra reforça ainda a interdependência entre os seres vivos e os ecossistemas marinhos, dialogando com os dados que mostram que até 90% dos recifes de corais podem desaparecer até 2050 se a temperatura da água continuar subindo (IPCC, 2023).
Ao explorar memórias líquidas e movimentos circulares, VIA dialoga com o eixo poético do Maré de Mudanças – a urgência de nos reconectarmos ao planeta como um organismo vivo. A linguagem simbólica ecoa aqui os princípios da ecologia profunda.